quarta-feira, 30 de março de 2011

“ O trigo que é dourado fará lembrar-me de ti...”


“Vês, lá longe, os campos de trigo? Eu não como pão. O trigo para mim é inútil. Os campos de trigo não me lembram coisa alguma. E isso é triste! Mas tu tens cabelos cor de ouro. Então será maravilhoso quando me tiveres cativado. O trigo, que é dourado, fará lembrar-me de ti. E eu amarei o barulho do vento no trigo…   (A raposa para o pequeno príncipe)” Exupèry



E o nosso pequeno príncipe se foi...  O  Juanzinho já não está mais aqui. No dia do seu terceiro aniversário os médicos constataram a morte cerebral. E a gente fica a pensar que anjo era esse que passou como um cometa, num sorriso inesquecível.  O cabelinho era dourado, nos vídeos que vimos postados pela Dayane, a mãe dele. “ E o trigo que é dourado fará lembrar-me de ti...” E eu vou seguir amando os pequenos príncipes, os anjos meninos, os cometas, as estrelas, e as mensagens de luz que resta deles.

Era tão puro
Devia mesmo ter vindo
De uma estrela
Era um príncipe
_ eu juro
E tinha uns olhos
Postos
Muito além de nós
De algum jardim.
O que tanto
O tornava belo
Era mesmo
A possibilidade
De perdê-lo
Uma estrela
Ouro do trigo
Anjo invisível
Cometa.

Era tão doce
Como uma pequena
Estória de amor
Contada ao ouvido
Aquele menino
Pequeno príncipe
Que eu vi
Com o olhar essencial
Do coração.

Sandra Fonseca. 
 http://avidaebarbaraa.blogspot.com/2011/02/eu-conheci-o-pequeno-principe.html#links

domingo, 20 de março de 2011

2011!


Recebi alta na quinta-feira e fiz uma loucura que jamais deveria ter feito, mas se quer saber. valeu a pena, e eu faria de novo. Logo depois de sair do hospital, fomos todos para Montes Claros, íamos  passar o ano novo na fazenda do Tio Paulo. Eu passei mal a viagem toda, não parava nada no meu estômago. Chegamos em Montes Claros e fomos pra casa da Tia Tine e do Tio Paulo, eles são os pais da bruninha. Estavam todos a minha espera com um super lanche, antes de irmos para a fazenda. Eu só consegui comer um pão de queijo, mas olha, só de estar ali com as pessoas que eu mais amava,já estava valendo a pena. Fomos pra fazenda no mesmo dia. Um dos carros atolou na estrada e foi a maior confusão. No dia 31, a emergia elétrica acabou várias vezes e só as onze da noite a luz resolveu voltar. Foi uma correria, pois todo mundo queria tomar banho e se arrumar para o ano novo. Tia Dária estava acabando de arrumar o jantar, e faltando 5 minutos para a meia-noite, a luz acabou de novo. Acabamos passando o ano novo a luz de velas, mas apesar de tudo eu curtí muito. No outro dia tentei ficar mais quietinha para me recuperar do mal-estar e até conseguí comer alguma coisa. Domingo era o dia de voltar para Belo Horizonte, mas acabei conseguindo adiar para a terça-feira, e com meu pai. Antes de ir ainda passamos na casa da Vovó Tereza, pra eu matar a saudade. E assim 2011 começou, em plena batalha... 


Lá bem no alto do décimo segundo andar do ano
Vive uma louca chamada Esperança
E ela pensa que quando todas buzinas
Todos os tambores
Todos os reco-recos tocarem:
- Ó delicioso vôo!
Ela será encontrada miraculosamente incólume na calçada – outra vez criança
E em torno dela indagará o povo:
- Como é o teu nome, meninazinha dos olhos verdes?
E ela lhes dirá
( É preciso dizer-lhes tudo de novo )
Ela lhes dirá bem alto, para que não se esqueçam:
- O meu nome é ES – PE – RAN – ÇA …


Mário Quintana – Ano Novo




                                        


segunda-feira, 14 de março de 2011

Natal!... E havia um menino...




Depois daqueles dias difíceis fiquei um bom tempo em Montes Claros. Foram semanas perfeitas. Loren  (minha prima) tirou carteira de motorista e me levou pra passear na sua “máquina mortifera”. Foram altos passeios, muitas risadas, com Bruninha, Aninha e todo mundo. Foi muito bom mesmo. Voltamos para BH no dia 15 (quarta-feira), e no domingo voltei para o hospital para outra quimio, que começou na segunda-feira. Nem acreditei que não passei mal. Essa foi a melhor, por causa do cateter implantado não me furaram tantas vezes. Mansinha... a  Metotrexato. Fui embora na  quinta-feira, a tempo de pegar os preparativos para o natal na casa da Tia Dária e do Tio Marlindo. Meu colega de quimio, o Bruninho não teve a mesma sorte que eu. A febre o fez continuar internado e não deve ter sido fácil ficar lá na noite de natal. Tia Dária preparou uma bela festa para a nossa família, lá no salão de festas do prédio dela. A noite chegou e estavam todos aqui, meu pai, meu irmão, minha mãe, alguns primos, algumas tias e apesar da ausência da Bruninha foi tudo lindo.  No outro dia fui com o papai e mamãe na praça da liberdade. Que lindooo! A praça estava toda iluminada, e mesmo passando um pouco mal, achei que o passeio foi perfeito.  Papai e Buba (meu irmão) foram para Montes Claros. Sobrou tanta comida boa do natal que aproveitamos até, eu, mamãe, tia Dária, e tio Marlindo. Eu  aproveitei  até demais,  porque passei mal, e a minha internação seria neste mesmo dia. Já cheguei no hospital passando mal.  Mas, outra quimio me esperava, e logo vieram pulsionar o cateter e iniciar o soro que antecede cada sessão de quimioterapia. Dinda tinha uma semana de folga do seu trabalho e foi sempre ficar comigo. Saí na quinta-feira e adivinhem...Fui para Montes Claros!!  Mas, foi uma loucura que conto depois.
Este é o poema que a Tia Sandra (Dinda) me dedicou no Natal. Foi texto também do Cartão da loja da Tetê, a “Objetos com Alma”. Eu que já havia conhecido “O pequeno príncipe “ (Rhuanzinho), já sabia que
Havia um menino...

para Bárbara


E havia um menino
Nascido na palha
E era ele o presente
De amor sem igual
Era filho de um Rei
Era o filho de Deus
Era só um menino
Que era todo humano.

E Veio o menino
Acordar a alma
Da gente que não sonha
E dos meninos tristes.
Encher as palmas das mãos
De todos os homens
De entrega e de esperança.
E ao lado do ouro
Da mirra e do incenso
Havia um burrinho, uma ovelha, uma estrela...

E o menino sorria
E tocava de luz
A alma dos homens, dos bichos
E de todas as coisas
Entre o céu e a terra.

Dinda

domingo, 6 de março de 2011

Uma semana brava como a Cisplatina



 Mais um dia, e outra quimio. A danada da Cisplatina (aquela brava) que eu já havia comentado. Naquela semana colocaria também o cateter (pra quem não sabe, é um acesso totalmente implantável que fica por baixo da pele, conectado a uma veia). Ele facilita muito minha vidinha, pois não precisa me furar várias vezes. Era uma cirurgia, mas estava certa de que valeria a pena. Antes de fazer a quimio, fui para o bloco cirúrgico colocar o cateter. Aquela sala já não me era estranha e o fato de não conhecer o médico, me deixava ainda mais receosa. Era  um cardiologista que a Dra.Karine havia indicado. Dormi logo que me deram a anestesia e quando acordei estavam acabando de implantar o cateter. Depois senti que davam pontos e fiquei bem aflita apesar de não sentir nada. Logo depois fui para uma sala de recuperação. Fiquei um tempão lá e voltei para o quarto. No mesmo dia começei a quimio, que foi um sucesso, e nem passei mal como das outras vezes. Eu estava encantada, pois me sentia ótima, mas foi então que o cardiologista veio com uma notícia inesperada e ruim. Eu estava com pneumotórax (ar no pulmão ) e eu só estava com aquilo porque tentaram implantar o cateter de um lado do peito e não deu certo, então fizeram do outro lado, mas nesse tempo entrou ar no meu pulmão. Eu já chorava muito quando ele disse que eu teria que  colocar um um dreno. Dreno é só uma mangueira enfiada do lado do pulmão e que suga o ar. Ops! como assimmm....  dreno?? eu pirei, e nada nem ninguém me fazia parar de chorar. Lá fui eu de novo para aquela sala de cirurgia, já familiar demais pro meu gosto. Um dos médicos dessa equipe veio tentar me acalmar enquanto o material chegava. Conhecí o anestesista que era de Montes Claros. Acho que dessa vez capricharam na anestesia pois quando acordei já estava naquela sala de recuperação e com uma mangueira grossa,  do lado da minha barriga. Eu só queria ver minha mãe. Naquele momento eu só pensava em vê-la. Chamei o enfermeiro ele me avisou que eu ainda ficaria um tempo lá,. Eu estava com um aparelho respiratório no meu nariz que realmente me incomodava. Ninguém me dava muita atenção e observei que um menininho entrou chorando muito, se debatia todo, chamava pela avó. Passado um tempo, trouxeram a avó dele. Aí pensei comigo que se ele pode porque eu não??  comecei a chorar de novo, ou melhor eu acho que estava chorando. Eu  estava tentando chamar a atenção deles, e o enfermeiro veio logo saber o que estava acontecendo, eu entao disse que queria minha mãe, mas quando olhei no rosto dele achei que ele estava rindo de mim. Acho que não colou muito.Até fiz força, mas a lágrima não descia, como de outras vezes. Sem conseguir convencer ninguém, minha mãe nao foi me ver.Mas depois de um tempo me levaram para o quarto. O tal do dreno era mesmo horrível,  eu não conseguia me mexer que doía demais. Fiquei naquela posição por um bom tempo. A semana foi bem tensa. Todos estavam muito abalados com minha situação. Todos os dias o cardiologista passava  pra me examinar e dizia que no outro dia eu tiraria o dreno, e cada vez eu ficava com mais raiva dele. Chegou o final de semana e eu ainda estava lá Meus pais tentavam me explicar que isso acontece, mas não era fácil eu aceitar. Depois de sete dias, finalmente me libertaram daquela coisa. Ele tirou o dreno e deu os pontos no meu quarto mesmo. A enfermeira Fernanda ficou do meu lado porque mamãe tava passando mal lá no quarto da Lorraine. A fraqueza que eu fiquei por ter ficado de cama, fez a Tia Tetê passar o maior aperto comigo. Eu desmaiava a toda hora. Chegou a quinta-feira e me deram alta. Casquei fora! Sufoco, viu? Meu prêmio foi ir para Montes Claros no dia seguinte.

domingo, 20 de fevereiro de 2011

Não estamos sozinhos

 
Internei-me  novamente para fazer outra sessão da Metrotexato (essa é mansinha, ou quase...) . Durante a semana conheci a Lorraine, ela tem 16 anos e tem osteosarcoma assim como eu, mas o dela é no joelho. Ela esta um ciclo na minha frente. A Lorraine é super gente boa, e me animou muito conhecê-la. Conheci também a Gabi que tem 17 anos e teve osteosarcoma em 2007, mais depois do tratamento o tumor voltou e ela teve que amputar. Ela recomeçou outra luta e agora está no final do tratamento e em seguida vai colocar uma prótese. A  Gabi é um exemplo de superação, ela é super alto astral e passa uma segurança incrível para as pessoas. Além delas, eu conheci o Bruno que é o mais novo nessa nossa “turma”, tem 13 anos, e tem osteosarcoma no joelho, como a Lorraine, só que ele já fez a cirurgia e esta no final do tratamento, quase curado. O Bruninho é uma gracinha, super gente boa, e me mostrou  que somos todos capazes de superar essa fase dificil. Nossas mães ficaram super companheiras, uma apoiando a outra no momentos mais difíceis. Foi bom demais  conhecer eles. Quando a gente pensa o porque isso acontece com a gente, vê que isso pode acontecer a qualquer um. Então fica mais leve tentar superar. Todos podemos conseguir. Eu conseguí entender que não podia me deixar abalar por esse “tal” de câncer; eu sei que posso vencê-lo. Eu VOU vencê-lo!.
Bem, naquela semana tive um pouco de febre e  só pude ir embora junto com o Bruninho, no sábado. Voltei para casa de Tia Dária, sempre meu refúgio depois das “quimio” . E neste fim-de-semana meu daddy veio me visitar.

sábado, 12 de fevereiro de 2011

Eu conhecí o pequeno príncipe

                                



O nome dele é Juan, e ele tem inacreditáveis dois aninhos. Eu o conheci no Hospital da Baleia durante o meu terceiro ciclo de “quimio”. Ele tem um tumor no cérebro e estava no hospital tentando se adaptar ao tratamento quimioterápico. Uma figura doce que me fez aliviar o coração da minha própria dor, a mim e a todos que o conheceram. Ele tem um tumor, é quase um bebê, e fala coisas de encantar qualquer um. E o  Juanzinho veio no meu quarto me visitar: “ e ai você tá jóia?” me perguntou aquele doce bebê. “Eu tô e você?”. Resposta: “ele não tá bem hoje não”. “Por que Juan?” “Ele perdeu o acesso.” Geeeeente, pára tudo! ele fala na terceira pessoa, de um jeitinho mais adorável de ser.  Nos surpreendia com sua força, e quando passávamos na porta do quarto dele ele dizia: “Vem ver o  Juan, vem!” Quem não se derretia todo por esse pequeno príncipe? Juan é super inteligente e esperto, e na verdade não “adorava” as enfermeiras pois tinha medo. “Não machuca o  Juan”, ele dizia. Mas como alguém ia poder machucar essa fofura? Ele encantava a todos, adorava pedir coisas: “ Tia Paula o Juan quer dinheiro”, falava com a enfermeira. “ Gente, ele tá com fome, ele quer pão”. Uma ótima dele é que a mãe, por não saber o nome de uma moça da limpeza da qual ele gostava muito, disse a ele que ela era a tia “Zoiuda”. Assim que ela entrou no quarto o Rhuan disse: “Tia Zoiuda, o Juan quer bolo redondo”. O bolo redondo é panetone, pois era época do Natal e ele tinha experimentado e adorado. Esse “Tia Zoiuda” foi tudooo! Ele parecia que tinha uma “bateria” ligada e que nunca descarregava, nunca acabava, e isso que me fez cada dia mais gostar dele. No dia que eu ganhei alta fui me despedir do Juan. “ Não vai embora não, não deixa o Juan aqui não”. Ele disse todo tristinho. “Eu volto pra te ver” eu respondi e meu coração ficou apertado diante daquele pequeno esboço de gente grande. Eu estava com um presente que eu iria dar à minha médica, ele como sempre “pidão” disse: “ Ele quer presente”. Como não ceder a um apelo desses? Eu não tinha nada, mas me lembrei de uns lápis decorados, da loja da tia Tetê. Peguei um e ofereci à ele. Ele olhou para o presentinho, olhou para o que eu tinha nas mãos e eu perguntei: “E aí Juan, gostou?” O espertinho: “ele não gostou não, ele quer o outro”. Claro, pois o embrulho era muito maior.

Esse foi o meu encontro com uma versão real do Pequeno Príncipe. Que falava na terceira pessoa, que tinha uma palavra na ponta da língua, e cuja imagem jamais vou esquecer. Quando voltei ao hospital da baleia tive noticias do Juanzinho. O estado dele havia se agravado por causa de uma infecção e foi transferido para o CTI de outro hospital infantil. Atualmente está se recuperando e eu espero rever a sua carinha doce.

domingo, 6 de fevereiro de 2011

O Hospital da Baleia

No meio da semana, a saudade que eu tinha de casa, fez meu pai me levar para  Montes Claros. Adorei o modo como fui recebida. A  Rosa, a moça que trabalha na minha casa, me paparicou até, fez sopinhas, e um monte de comidas que eu adoro. Reví a Bruninha, isso foi das coisas mais importantes. No dia 3 de novembro eu teria outra consulta com a Dra.Karine em BH,  e a próxima quimio ficou marcada para o dia 7, um domingo.  Dessa vez era uma outra medicação, um remédio chamado Metotrexato, e que diziam ser mais fraco. As quimioterapias seriam intercaladas entre esses dois remédios: Cisplatina e Metotrexato. Nomes imponentes, não? Um protocolo de tratamento com 16 ciclos de quimioterapia. Esse é o número 2.
Essa internação e as próximas serão feitas no Hospital da Baleia, recomendado pela médica, por estar situado num lugar mais afastado, muito tranquilo, e que seria melhor para minha recuperação. Lá fomos nós, Hospital da Baleia. Sem meu pai (Meu daddy). Ele  não podia estar presente, já que tinha muito trabalho acumulado em Montes Claros.  Para compensar, além da Mamãe, foram  meus tios (Tio Marlindo, Tia Dária, Dinda (Tia Sandra), e Tia Tetê e o Tio Calique. Houve um problema na recepção, sobre a liberação do apartamento para eu ficar. Enquanto isso se resolvia meu Tio Marlindo e eu passeávamos de cadeira de rodas. Quando liberaram um apartamento, subimos todos, e as enfermeiras eram bem simpáticas, mas aquele hospital que parecia um sanatório me deixou um pouco assustada. Comecei a hidratação com soro nesta mesma noite e na  segunda-feira começou a quimio, e foi mesmo bem mais tranquilo em relação a outra (Cisplatina), que Dinda chama de “A brava”. No final da semana  eu estava me sentindo muito bem, só que para receber alta não dependia de como eu estava me sentindo, ou seja, “doida” pra ir embora, mas do exame de sangue, que eu fazia todos, os dias após a quimio, até que o nível do remédio no meu sangue ficasse bem baixo. Aí então... fériaaaas!
Minha acompanhante constante, claro, é a minha mãe. Durante essas internações, a tarde geralmente são revezadas entre Minha Tias Dária e Tetê. Tia Tetê sempre trás todas as revistas de adolescentes e joguinhos para ajudar o tempo a passar. Aliás, ela apanha bastante de mim nesses joguinhos (mas, um dia ela supera). Outra mordomia é a comida que tantas vezes trazem ,de fora, pra mim. A comida do hospital não me atrai nem um pouco. Deve ser o clima. Minha alta saiu afinal, mas só na sexta-feira. Cheguei na casa da Tia Dária bem fraca, mas bem melhor do que da última vez. E no sábado meu pai veio me visitar.  Mais uma batalha vencida.



 Desde janeiro de 2005, a campanha “Adote o Hospital da Baleia” incentiva os clientes Araujo a doarem o seu troco ou parte dele para o Hospital da Baleia. Graças à generosidade das pessoas, já foram arrecadados mais de 5 milhões de reais, que são repassados integralmente à campanha, em prestações de contas periódicas e auditadas pela Vaz & Maia Auditores Independentes. Essa arrecadação ajuda a manter o hospital e possibilita que a Fundação Benjamin Guimarães realize várias melhorias, como a ampliação do número de leitos dos CTIS adulto e pediátrico. Isso não é bacana?
 http://blog.araujo.com.br/2010/12/agenda-2011/

domingo, 30 de janeiro de 2011

Aventura em São Paulo


Na segunda-feira, seguinte da minha primeira quiomio, eu e meu pai resolvemos ir para São Paulo para ouvirmos uma segunda opinião sobre minha doença. Eu queria muito ir, mas realmente não estava em condições, ainda no aeroporto para embarcar,  a cada dez passos eu tinha que sentar pra não desmaiar. Meu pai até quis desistir, mas eu precisava ir. Queríamos respostas a tantas perguntas...   Reuni todas as minhas forças e conseguimos chegar a São Paulo. Logo em seguida fomos almoçar, e eu estava tão fraquinha que isso me deu forças para aguentar o resto do dia. Logo no início da tarde fomos para a consulta com Dr.Sidney Stelman. Sabíamos que há 30 anos que ele só trata do meu tipo de tumor (Osteosarcoma). A consulta foi incrível, ele nos ajudou bastante, e deixou bem claro que o momento da cirurgia era o mais importante em todo o meu tratamento, e  que tudo precisava dar certo. Isso nos deixou  bem mais confiantes. Saímos de lá direto para o aeroporto e aí tomamos um chá de cadeira, mas naquele aeroporto que mais parece um shopping, eu ficaria quantas horas fossem necessárias. Chegamos a Belo Horizonte naquele mesmo dia. Foi uma verdadeira aventura viajar a  São Paulo. Achei mesmo que São Paulo é “perfeito”. Tenho a promessa do meu pai, quando tudo isso acabar, a gente vai voltar à  São Paulo, mas dessa vez só pra passear. 
Rumo a Sampa...

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Vamos fugir?

Nesse dia que seria o início do seu tratamento, lembro-me que ficamos um bom tempo esperando o seu remédio chegar. Havia uma máquina que controlava o soro, a dosagem, o tempo, tudo. Não houve como não nomeá-la de “Dona Fifi” (Fifi,é em homenagem àquelas figuras que controlam a vida alheia, e dão notícia de tudo). Na hora do almoço, fomos nos revezando, e houve um momento em que ficamos eu, você e Tetê. Entre muitos causos e risadas, pontilhavam de vez em quando alguns silêncios. Acho que não sentíamos aflição, mas eram silêncios cheios de expectativas, e claro que de muito medo. O medo, minha querida, é sem dúvida nenhuma um dos gigantes da alma. Mais que a dor física e a própria dor emocional. Mas é só um gigante, que você derruba ao solo todos os dias, se preciso for. Em meio a um desses silêncios, alguém sugeriu: “Vamos Fugir”? (devo ter sido eu, com minhas idéias mirabolantes...) nos entreolhamos e ... fugimos através da música.
“Vamos fugir
Pra outro lugar, baby
Vamos fugir
Pra onde quer que você vá
Que você me carregue”...*
A gente cantava e sorria . Sorríamos, eu e Tetê, contagiadas pelo brilho dos seus olhos adolescentes. Esse mesmo olhar que hoje persiste ,e nos acolhe com uma luz aconchegante sempre que estamos em sua companhia. Ninguém fugiu dali. Ao contrário. Mesmo tentando que a enfermeira ligasse o soro na Tetê (a quem você espertamente fez com que colocassem uma pulseira de paciente), a medicação foi feita. E na sua luta , nos apresentamos, nos fizemos soldados, armados até os dentes, se preciso for, contra a tristeza , a dor, e a solidão.
Mas,... vamos fugir?
Dinda.






*”Vamos fugir” – Gilberto Gil e Liminha

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

A Cisplatina

Em Belo Horizonte ficamos hospedados na casa da minha Tia Dária que nos recebeu muito bem,  e continua nos recebendo. Amanda, minha prima preparou um quarto só pra nós, tem até fotos da nossa família. O médico a quem fomos encaminhamos nos atendeu e foi logo pedindo  um monte de exames. Minha Tia Tetê,  que também mora aqui em BH nos acompanhou para todo lado, simplesmente nos levou em todos os exames, nos ajudando muito. Esse médico daqui, o Dr.Caetano, afinal não podia fazer meu tratamento dentro do nosso plano de saúde, então nos transferiu  para Dra. Karine que é até  conhecida da  Dra. Priscilla, lá de Montes Claros, aquela que falou finalmente do meu diagnóstico. Dra. Karine não teve muito o que nos explicar, mas ela seria a responsável, a partir daquele momento por minhas quimioterapias e o Dr. Rodrigo Granda, da mesma equipe, cuidaria da minha cirurgia. Quando saímos de lá, já deixamos marcada a primeira sessão de quimio que seria feito no Hospital das Clinicas. Eu ia internar no domingo e começar a fazer a quimio, terminava na segunda-feira e assim que me recuperasse teria alta. Havia a possibilidade de eu fazer na clínica, sem precisar me internar, mas a Dra. Karine disse que eu podia passar mal e  precisava ser acompanhada e avaliada, ou seja, tinham que saber como meu organismo ia receber essa medicação. O dia da internação chegou e lá fomos eu,  mamãe e Tia Tetê. Tentei despitar que era a Tia Tetê que era a paciente, ela afinal estava com tanta invejinha de mim. Conseguí que colacassem nela também aquela pulseirinha de identificação de paciente internado. Subimos para o apartamento e minha Dinda chegou, logo em seguida meu pai também chegou de Montes Claros. Eu havia dito que ninguém botava a mão em mim enquanto meu pai e minha Dinda não chegassem, e deu certo. A enfermeira, que Dinda apelidou de Tererê (por causa das trancinhas dela) pulsionou minha veia e colocou o soro. Dessa vez foi menos pavoroso,mas eu enrolei o quanto pude. Meu pai foi embora naquele mesmo dia pois precisava trabalhar.Esse meu anjo da guarda tem feito uma ponte (terrestre mesmo) entre BH e Montes Claros, de forma incansável. Essa primeira quimioterapia foi com a tal “Cisplatina”, um dos remédios que eu iria usar por via venosa. Passei muito mal, a médica já havia falado que é o mais forte  deles.  Só saí do hospital na quinta-feira, mas eu não estava nada boa. Meu pai veio nos buscar no hospital. Ao sair, fiquei tão feliz de ver gente, nunca foi tão bom ver gente, luz, rua, movimento. Mas aí fiquei enjoada e vomitei o resto da semana.  Este foi o primeiro ciclo de tratamento, em um protocolo que tenho que seguir com 16 sessões de quimioterapia e uma cirurgia, daqui a alguns meses. Tenho que me lembrar que é um dia de cada vez, e cada um com sua agonia, mas também com muito carinho e conforto ao meu redor.


sábado, 22 de janeiro de 2011

O diagnóstico

Finalmente chegou o resultado da biópsia. O Dr. Eduardo nos encaminhou para uma médica e disse que seria ela que trataria o meu problema, a Dra. Priscilla. Mas, afinal, qual era o meu problema? Ninguém sabia a resposta. Na hora da consulta, entramos todos juntos na sala dela, eu, meu pai e minha mãe. Ela parecia ser bem simpática, e logo que entramos pediu que eu explicasse tudo que tinha acontecido, e, em seguida, ela olhou meu raio X, e examinou meu braço. Então a médica disse que eu tinha um tumor. Foi como perder o chão, e de novo aquelas lágrimas que não ficavam quietas. Não dava pra pensar em nada, só chorar. Ela começou a me explicar, e eu me senti como se estivesse sozinha na sala com ela,  eu só ouvia , e ela dizia que eu estava com câncer do tipo osteosarcoma, que eu teria que fazer quimioterapia ( hoje eu sei que é um remédio que se toma via venosa). Mas quando ela falou que meu cabelo iria cair, isso eu não ouvia, porque a voz dela sumia, e na verdade eu não queria escutar nem ela, nem ninguém. Aquele foi, com certeza, o pior momento da minha vida. Meus pais tentavam me acalmar, afinal, eu sabia que eles estavam nessa comigo, mas eu não conseguia prestar atenção em nada, só chorava, e o resto da consulta foi assim. Cheguei em casa e  já fomos arrumar as malas pois no outro dia iríamos para Belo Horizonte iniciar o meu tratamento. Ficou decidido que eu ia me tratar lá, e a Dra. Priscilla já havia até marcado consulta com uma equipe de médicos que cuidavam desse tipo de câncer.
 No dia seguinte fui à escola. Eu queria despedir das minhas amigas e quando cheguei lá percebi que dalí em diante, minha vida não seria mais a  mesma. Era como se mais um dia  ruim começasse, e o que me mantinha firme, era saber que eu não estava sozinha e que tudo aquilo tinha uma data para acabar e além do mais, meu pai me prometeu que daria minha vida de volta. Difícil foi me despedir da  Bruninha, a minha prima querida. Somos inseparáveis e eu não imaginava como seria ficar tanto tempo sem ela, mais eu precisava ir.
A viagem foi bem tranquila para BH. Estávamos todos tão pensativos e confusos, que era difícil falarmos de alguma coisa. O silêncio era maior que todos nós.
Eu e meu pai em BH

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Cada dia com a sua agonia

Acordamos as seis horas da manhã e fomos para a Santa Casa. A enfermeira que nos acompanhou até o quarto pediu para eu trocar de roupa que logo iriam trazer o soro. Ops, soroo? E aquela roupa sem nenhum senso de moda e conforto? De novo eu não controlava minhas lágrimas rebeldes, mesmo que meu pai tentasse me manter calma. Mas foi ele, com muita paciência, que me explicou que  aquilo tudo era necessário, que eu tinha que fazer; e disse também que tudo o que precisasse ser feito nós faríamos. Foi então que começou  a minha fase de superações. Vesti aquela roupa horrivel, logo depois chegou um enfermeiro; eu tremia, chorava, suava, resumindo, é que eu tenho PAVOR DE AGULHA!.
Apesar da minha não colaboração com o enfermeiro, ele fez o seu trabalho, ligando o soro no meu braço, e  é claro que eu achei  que aquilo doeu demais. Dr.Eduardo havia nos explicado que poderia ser uma inflamação no osso o que seria simples, eu teria que ficar alguns dias no hospital tomando alguns remédios anti-inflamatórios, caso contrário eu iria embora sem um diagnóstico definido. Bom, a cirurgia estava marcada para  as onze horas, e minhas amigas Kamilla e Camila, chegaram para me visitar uma hora antes. Passou tão rápido que logo uma enfermeira veio me buscar para o bloco cirúrgico. Eu fiquei nervosa de novo, todos me acompanharam até a porta e as  minhas lágrimas a essa altura já tinham independência e com certeza elas não queriam ficar quietas. Entrei naquela sala estranha e fria e tentei me ocupar reparando nos detalhes daquele lugar. A  enfermeira Juliana me fez companhia até o Dr .Eduardo chegar, o que não foi nada rápido . Ele chegou junto com o anestesista que, aliás, era bem simpático, e que meu pai não me ouça dizendo isso, mas o anestesista era bem bonito. Também, depois de tomar aquele remédinho, eu não vi mais nada, quando acordei, estava na sala de recuperação, não conseguia ver o meu braço que doía muito. Uma enfermeira veio me perguntar se eu estava sentindo dor. Lutava para manter meus olhos abertos, estava meio tonta e respondi que sim. Alguns minutos depois a enfermeira voltou e naquele momento eu enxerguei muito bem uma injeção na mão dela. Quando ela disse que era um remédio para a minha dor eu acordei de todos os sonos e preferi ficar sentindo dor. É isso mesmo, não quis tomar a injeção. Tudo bem que essa é uma fase de superação, mas vamos com calma. Ao voltar para o quarto estavam todos me esperando. Eu precisava muito ir ao banheiro, mas se querem um conselho, não tentem levantar depois de uma cirurgia. Bem, minha ida ao banheiro não deu certo, e eu ainda estava morrendo de fome. Eu até ia comer aquela comida deliciosa do hospital, mas meu pai chegou com um super lanche da Center Pão e para não deixar ele chateado tive que comer o lanche que ele trouxe, e deixar a comida do hospital de lado. Mas até para fazer um pai feliz é dificil. Um dos meus braços estava com soro e o outro foi o da cirurgia, então Kamilla (uma das amigas) tão boazinha, foi me dar o lanche  e no fim tudo virou uma grande diversão. Me esquecí um pouco de que tudo isso estava só começando. As meninas foram embora e eu descansei um pouco. Quando acordei tia Zézinha estava lá, mas aí veio uma notícia que eu não sabia se era boa ou ruim, eu estava de alta, mas sem um diagnóstico o que me preocupava bastante. Fui pra casa e minha semana foi normal. O resultado da biópsia sairia em vinte dias. As coisas na escola ficavam cada vez mais dificeis, pois já não conseguia escrever direito. Pensar no que poderia vir pela frente me afligia, mas meu pai como sempre me confortando, me falou uma coisa que levarei para sempre comigo. Ele disse : “Cada dia com a sua agonia”, e aquele dia eu já tinha superado e me preocupado com tanta coisa. Então, o que vier amanhã vou deixar pra amanhã, e acho que é isso que me sustenta.

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

E era meu aniversário...

                  No outro dia era meu aniversário. A aula  havia sido perfeita  e ainda na escola meus pais me enviaram um buquê de flores. A tarde eu tinha consulta marcada com o Dr. Eduardo Pina, o médico  que deveria ter examinado minha radiografia. Não  era  o melhor programa pra eu fazer na tarde do meu aniversário, mas era o que tinha que ser feito. Depois de uma espera que me pareceu longa demais, o Dr. Eduardo nos atendeu carinhosamente. Ao observar o meu raio X, fez uma cara muito séria e pediu para examinar meu braço e perguntou se eu estava tendo febre. O meu corpo tremeu, eu fiquei gelada e a primeira lágrima desceu,  ele havia  feito a mesma pergunta do clínico.  Ele parecia muito preocupado, Saiu de repente da sala, com meu exame nas mãos. Eu, meu pai e minha mãe ficamos nos entreolhando e logo meu pai saiu atrás do médico. Ao  sair parecia que ele tinha levado todo ar da sala com ele. Quando finalmente voltaram, meu pai estava pálido e o Dr. Eduardo havia  perdido seu ar de conforto  e  ficou totalmente profissional. Eu já sabia que a notícia não era boa. Minha mãe do meu lado tentava me acalmar, mas aquela sala de hospital literalmente branca, de repente, parecia estar coberta por uma sombra preta. O Dr. Eduardo falou com muito cuidado, e afinal, o Clínico que me atendeu anteriormente estava certo, pois eu teria que fazer a biópsia. Eu nem controlava mais  minhas lágrimas que desceram em abundância. Não sabia o que falar, muito menos o que pensar. Eu só conseguia chorar. O médico, aos poucos, foi nos explicando tudo. É,  eu teria que fazer uma cirurgia e já no dia seguinte,. Meu pai foi para o consultório do Dr.Eduardo resolver a parte burocrática e eu e mamãe fomos para a casa da minha tia, que junto com minhas outras tias tinham preparado  uma surpresinha pra mim. Foi então que me lembrei que ainda era o meu aniversário.

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Eu pensava que era só uma dor no braço



                   Pode parecer estranho, mas tenho 14 anos e muitos problemas. Minha vida mudou naquele dia. Era feriado de 7 de setembro, meu braço tava doendo muito. No dia 9 (quinta-feira) eu fiz uma radiografia, do braço e como o resultado demorou muito pra sair, o médico que solicitou o exame não pôde me atender. Então meu pai me levou em outro médico,  no hospital Aroldo Tourinho em um clínico geral. Ele olhou friamente meu raio X e com  uma cara não muito boa me perguntou se eu estava tendo febre. Não, eu não estava tendo febre, e ele sem cuidado nenhum( bem, eu achava que deveria haver um outro jeito de dizer coisas desagradáveis...) Ele falou que eu teria que fazer uma biópsia, pra ser mais claro eu teria que abrir meu braço e tirar um pedaço do osso. Saímos de lá confusos, meu pai me fez achar aquilo um tremendo absurdo,  mas na verdade eu sabia que ele estava com tanto medo quanto eu. Eu estava assustada; se eu não conseguia tomar uma vacina direito  por causa do medo de  agulhas, imagina fazer uma cirurgia?

Porque a vida... é Bárbara!



Tenho um orgulho muito grande de ser eu a apresentar esse blog. Não só por ser a madrinha (Dinda) dessa pessoa tão especial quanto a Bárbara, por também ter vislumbrado, já na primeira leitura dos rascunhos desse diário, a qualidade da escrita, sem nenhuma afetação, recheada de momentos de puro humor e alegria de viver; a vida do jeito que ela é. A beleza dessa criatura que tem nos surpreendido a todos (a nós familiares, amigos, profissionais) pela força de superação que acionou diante do imprevisto. Este  é o relato de uma adolescente como qualquer outra da sua idade. A diferença é que esta nossa menina veio nos lembrar que a vida vale cada momento, cada dia. Que a vida é um bem maior pelo qual lutamos, mas sem perder nem a graça, nem a dignidade, nem a beleza de ser. A vida, minha gente... é Bárbara!

Sandra Fonseca